quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2011

Estamos prestes a entrar em mais um ano e sempre nesta época temos a oportunidade de nos revigorarmos diante dos desafios que temos pela frente. E eles não são poucos. O Natal dá um ar diferente ao final do ano e nos prepara para abertura do próximo ano. Se fizermos um balanço do ano de 2010 com certeza todos nós encontraremos motivos para nos alegrarmos e motivos para entristecermos. Não é exclusividade de 2010, pois assim é a vida em todos os anos onde o corpo e alma estiverem vivos. Digo isto pois nem sempre o corpo morre primeiro que a alma. Sendo assim se a alma estiver morta, não vai ter ano que seja bom. Já se a alma estiver viva, saberemos olhar para 2010 com sabedoria daqueles que conseguem ver as dádivas que a vida nos apresentou todos os dias e daí com este mesmo espírito olharemos para 2011 do jeito certo. Escrevo este texto depois de visitar um amigo que sofreu um acidente de moto e está no hospital esperando para operar o fêmur e o dedão da mão, objetos de fratura durante o tombo. Em conversa lá com este amigo, ficamos sabendo do médico que a recuperação parcial se dará em 6 meses e a total em 1 ano a base de muita fisioterapia, tudo isto após uma cirurgia que ainda iria ocorrer para colocação de platinas e parafusos. Este está sendo o final de 2010 deste meu amigo. Conversando com ele, escutei o relato do acidente e logo após, as reclamações de ter de ficar na cama, do tempo de recuperação, da dificuldade que iria ter para tocar a sua empresa agora com este problema, dos empecilhos gerais, coisa que todos nós iríamos fazer se estivéssemos no lugar dele. Mas pelo relato do acidente, só consegui pensar num fato: "o cara tá vivo" e mal consegue ver isto. O ano de 2010 acabou bem ou mal para ele ? Depende muito do ponto de vista. O ritmo de vida atual tem nos levado a pensar deste jeito; achamos que somos quase imortais, que não temos necessidades especiais, que não podemos parar nunca. Estamos parecendo um fast food em ritmo e em falta de qualidade.

( Chega até a ser engraçado quando vemos depois da invenção do Fast food um movimento chamado slow food. Para mim os dois são ridículos e olha que quem inventa e fala sobre o slow food é considerado um guru. O certo é o caminho do meio e a minha avó daria este conselho sem receber um tostão por isto.)

Voltando um pouco a questão do ano que se aproxima, a grande notícia é que ao começar um novo ano, podemos experimentar a ressureição dos vivos. Isto mesmo. Melhorar um pouquinho, reforçar o que foi bom, corrigir o percurso da vida, ajustando nossa maneira de pensar e desenhar o mundo em que vivemos. Eu particularmente acredito muito que a existência é uma caminhada onde vamos melhorando um pouco mais a cada ano. A maturidade trás consigo a consolidação de valores dos quais nunca mais abriremos mão. Isto tem o lado bom e o lado ruim como em tudo na vida, pois da mesma maneira que nos indignamos com mais freqüência diante de fatores que contrariam estes valores, criamos forças em iguais proporções para lutar para mudar tais fatos. E 2011 está prestes a se tornar parte desta caminhada.

Agora no final do ano é comum nos almoços da empresa escutar a pergunta sobre o que podemos esperar de 2011, especialmente no Brasil onde trocaremos de presidente e teremos um Tirica com representante maior da classe política ?

Eu respondo a esta pergunta dizendo que particularmente acredito que a transformação do nosso país se dará pelas pessoas comuns, pela conscientização de nossos direitos e deveres, pela vontade de deixar um legado para as próximas gerações que virão em todos os aspectos da vida. Isto vai muito além de qualquer força política contrária que possamos encontrar pelo caminho. É crescente a necessidade de alinharmos nossas ações com as necessidades globais. Fatores como a utilização inteligente de recursos naturais, envolvimento maior nos problemas sociais ao nosso redor, fortalecimento de valores como ética e honestidade, envolvimento na comunidade onde estamos inseridos, precisam passar a compor regularmente nossa caminhada de vida.

Nossa visão do mundo tem de estar muito conectada com estas necessidades e isto precisa ser um exercício de todos os dias. Precisamos que todos comunguem da idéia de que para que um ganhe não necessariamente o outro precisa perder. Não se trata de socialismo mas de "humanismo". É assim que deve ser a vida tanto no campo pessoal quanto que no profissional. Eu sinto que tem mais gente pensando assim e colocando isto em prática.

Fico tranqüilo em saber que vários de meus familiares e amigos são pessoas que pensam grande e que me ensinam muito sobre o que é viver, que fizeram meu 2010 ser espetacular e seguindo com eles e outros que vão se aproximando, não há o que temer em 2011. Em 2011, além de meus familiares e amigos, continuarei meu foco nas pessoas comuns. Vou continuar admirando os Josés e Marias que vão trabalhar todos os dias de manhã e voltam a noite e administram uma casa com um salário mínimo; admirando todos os casais que cuidam bem de seus filhos; todos os voluntários que trabalham em qualquer causa de ajuda ao próximo; aplaudindo o empresário que gera postos de trabalho em sua empresa e que pensa além do lucro tentando melhorar a vida dos que ali estão; admirando os professores que sabem da responsabilidade de lecionar com propriedade apesar dos pífios salários recebidos; curvando-me aos que defendem a integridade da família (em especial a minha sogra que faz isto como ninguém); homenageando as mulheres que exercem em sua maioria jornada dupla.

Em 2010 nasceu este projeto do blog, uma das coisas que gostaria muito de fazer. Em 2011 ele completará seu primeiro ano de vida. Só por isto estes dois anos ficarão marcados em minha trajetória de vida. Aos amigos que tem seguido e me dado o prazer de encontrá-los através das palavras não poderia deixar de desejar em especial, um 2011 fantástico a vocês. Aos seguidores Carla Farinazzi, Vana, Luciano, Cinthia, Vitor, Áurea e Agostinho, Erika e José Renato (inspirações), Silvania, Raquel, Hoffmann, Careca, Rogério, Marcelo/Paulo/Cacá (os Bicaratos) , Sandro, que me incentivam na continuidade da escrita, a minha mais profunda gratidão. Aos demais que passam por aqui e que ainda não deixaram suas marcas também o meu agradecimento.

Espero encontrá-los diversas vezes por aqui onde as palavras soltas consigam nos unir cada vez mais em pensamento, em valores e em filosofia de vida.


Um Beijo no coração de todos vocês !!!

Vivemos 2010 e VIVA 2011 !!!!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal

O que realmente é importante neste Natal ? Confraternizar com amigos e familiares de certo seria a resposta que mais rápido nos viria à cabeça. Mas este ano experimentei um Natal antes do dia 25 de dezembro. No dia 19 de dezembro, fui apreciar a apresentação de um coral na igreja metodista de Guaratinguetá. Chegando lá, já preparado para ouvir as músicas, deparei-me com um pastor da igreja falando algumas palavras antes da apresentação, que me fizeram refletir a respeito. Em suas palavras estavam a explicação do Natal e como o sentido foi alterado nos dias atuais. Ele discorreu a respeito deste fato e ao final de sua mini pregação, convidou a todos que estavam ali a vivenciar o Natal naquele momento. Isto mesmo, sem ceia, sem presentes, sem o banho mal tomado de bondade que fingimos obter doando nossos brinquedos velhos às crianças pobres somente num único dia e viramos as costas paras os outros 364 dias do ano. Sem a neura de comprar o que vemos pela frente para presentear a quem gostamos. Não que tudo isto seja errado ou condenável, mas reflitamos bem, o Natal é muito mais do que isto. Ali foi um convite para viver o sentido do Natal. Confesso que não fui ali buscar ouvir explicações sobre o Natal, mas fui para ouvir músicas natalinas. Ele continuou ainda dizendo que o coral não estava ali para apresentar um espetáculo. Longe disto, o coral iria apenas ajudar a transmitir as explicações do verdadeiro sentido do Natal. Aceitei o convite e a apresentação se deu durante uma hora, com músicas agradáveis, com a leitura de textos entre as músicas inspirando a refletirmos como o Natal poderia acontecer e como ele poderia deixar de acontecer. No intervalo de cada música cantada nada de palmas, pois como foi explicado, aquilo não era um show.

Achei muito interessante mesmo não sendo membro nem freqüentador de tal igreja. Não acho realmente que dar presentes nesta data seja errado. Acredito apenas que é uma data que merece uma espiritualidade maior independente da crença. Assim completaremos o sentido do Natal. É aproveitar para fazer uma reflexão no sentido do que realmente estamos fazendo para ajudar o outro. Não é no ano novo, na passagem de um ano para o outro que a esperança se renova, mas exatamente no Natal, no nascimento de Jesus que é proveniente de uma família onde eu acredito estar a solução de todos os problemas do mundo. Sim, na família. E foi de uma família comum e com união que veio Aquele que pregou a simples atitude que poderia reger o mundo e melhorar todas as coisas "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Parece um clichê, mas dê uma pensada melhor no poder que esta frase poderia exercer se fosse tomado na prática. Sempre antes de tomar uma atitude repitamos a frase acima como balizador de nossos atos.

Aproveitando o autor do blog que vos escreve deseja que esta espiritualidade encontre cada um de vocês que aqui me dão a honra com sua visita.


 

FELIZ NATAL !!!!!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Quintal.

Que me deculpem os que moram em apartamento mas quintal é fundamental”

A frase aí de cima eu adaptei parafraseando o poeta. Evidente que sabemos e não podemos ignorar um dos principais problemas da atualidade que é a de segurança ou seria insegurança pública o que tem conseqüentemente transformado nossa maneira de viver a vida. Mas neste texto vou falar de quintal. Se um dia, lá no futuro, eu perguntar ao meu filho de qual parte da casa ele gostava mais quando morava nela, certamente obterei a mesma resposta que eu dou hoje a esta pergunta: o Quintal. Sim, o quintal. Nossa casa ficou parcialmente pronta em 2000 onde entramos para morar com as partes que considerávamos básicas prontas. Mal sabíamos que estávamos enganados quanto ao conceito de partes principais. O quintal ficou inacabado, com terra, onde após as chuvas o mato crescia e precisava ser cortado. Era terra e não havia ali a possibilidade de desfrutar do que ele nos oferece atualmente. Eu olhava pela janela da cozinha e via aquele espaço, mas ainda não sabia precisar o quanto ele seria importante.

Alguns anos se passaram e os primeiros anos de quem se casa se parecem muito com todos os anos de um estudante quando entra em faculdade: dinheiro zero por um tempo para acertar as coisas. Decorridos cinco anos a frente é que conseguimos efetuar o tão sonhado projeto de se ter um quintal. E daí meus amigos é que conseguimos ver a importância que um quintal reflete em nossas vidas. Lembro-me até hoje que assim que o tal quintal se tornou algo onde podíamos sair nele, o primeiro ato foi colocar um colchão no chão e deitar ali mesmo para apreciar o maravilhoso por do sol até a chegada das primeiras estrelas da noite. Parecia que todos nós entendíamos a conquista daquele quintal: a felicidade de nosso filho, a corrida para lá e para cá feliz de nossa cachorrinha, o dia bonito que nos foi dado de presente naquela tarde. E o quintal foi ganhando corpo. Como ponto fundamental, ganhou um fogão a lenha, um forno de pizza e uma churrasqueira que são o carro chefe para as reuniões que desenvolvemos ali entre amigos e familiares. Neste quintal como não poderia faltar, temos uma cachorrinha maravilhosa que nos acompanha desde nossa chega nesta morada; a pequena é de tamanha inteligência que consegui sentir seu agradecimento pela nova morada. Ganhou em seguida um arvorezinha de acerola maravilhosa e esta merece mais detalhes. Este pé de acerola foi plantado pelas mãos de Da.Olinda e Erika num canto de nosso quintal e ali ficou durante quatro anos sem aparecer sequer uma fruta. Eu mesmo fui um dos que desacreditou naquela arvorezinha. Mas cada vez que olhava para ela não sentia a coragem de pedir para retirá-la. Minhas reclamações eram brancas, ou seja, na hora de decidir para retirá-la sempre voltava atrás e deixava a decisão para frente. Pensava em fazer, mas não tinha coragem de executar. Daí os diversos teóricos em plantas que passaram em casa vieram com os seguintes argumentos: é pé de acerola macho ou fêmea ? Caramba, como eu vou saber disto, eu que sequer coloquei a mão na terra para plantar qualquer coisa na vida como saberia dar uma resposta desta ? Sei lá se existe tal teoria e qual o fundamento dela, mas até isto apareceu para justificar a falta de frutas naquele pé. Passado mais alguns meses e quando chegou o verão com as estações das chuvas, num domingo saí no quintal e não é que vejo um ponto vermelho numa arvorezinha verde. Fui examinar com mais calma e não era um pontinho não era realmente um ponto muito maior do que uma acerola normal. Nunca tinha visto uma acerola daquele tamanho. Esta arvorezinha produz uma acerola que assusta a todos pelo seu tamanho e pela qualidade da fruta. Seu cheiro maravilhoso desbanca qualquer perfume produzido em laboratório. Passo atualmente horas admirando esta arvorezinha pequena no tamanho, mas com um poder absurdo de produzir uma fruta com tamanha qualidade. Esta árvore com suas frutas são tão lindas que inspiraram a música que fizemos recentemente.

Do outro lado o quintal ganha de presente dos pássaros um pé de maracujá que nasceu sozinho e que produz um maracujá lindo, com suas flores impossíveis de se descrever. Quem já viu uma flor de maracujá sabe do que estou falando. Parece de mentira. Nunca tinha visto, mas a flor de maracujá é algo completamente diferente, uma obra prima .

Ali naquele espaço que não é tão grande e nem tão pequeno, temos o que consideramos ferramentas fundamentais para viver os valores que apreciamos nesta vida. É ali mesmo naquele quintal que os parabéns são cantados, os amigos e familiares falam da vida, onde escutei as peripécias de uma amiga chamada Silvania a qual me candidatei a escrever sua biografia autorizada ou não, onde o futebol corre solto entre eu e meu filho naquela velha disputa do gol a gol que já rendeu quebra de lâmpadas e bolas na casa dos vizinhos que nunca vão entender a importância destes fatos (atenção vizinhos, leiam este texto), onde o milho é cozido no fogão a lenha, onde os almoços de final de ano acontecem e onde muita música é executada ao som de um bom violão.

Falando em música, num Domingo de manhã admirando tudo isto que é nosso bem maior, saí ao quintal, sentei-me embaixo do pé de acerola admirando a fruta e olhando ao redor. Um bem-te-vi cantou logo acima do telhado. Foi o que bastou. Peguei o violão, o banquinho e saiu a seguinte música que transcrevo abaixo:

Música: Acerola
Renato/Erika

Um pássaro cantou para me avisar
Que vai ter fruta boa no quintal
O Sol chegando para alimentar
O Amor

A acerola tem a cor do coração
É fruta com a doçura da canção
Van Gogh e July dão inspiração
Ao cantor

Alma de Cantor
Cheira como a flor

E a vida segue sempre no quintal
Na lenha um convite especial
Amigos conversando sobre a vida
Ideal

A chuva criadeira vem mostrar
Que a vida tudo pode renovar
E o dia acaba como uma oração
Que brotou


Pois é amigos, nosso quintal não tem nada demais mas tem a alma que emprestamos a ele. Para quem não conhece não pense em algo arquitetônico que estará errando. Pense nele como um local de comunhão, de amor e alegria. Um local onde literalmente a vida acontece, onde vejo as crianças de minha família e de meus amigos crescerem, onde temos a oportunidade de encostar coração no coração nos abraços de chegadas e despedidas. É esta a visão que tenho do meu quintal.

E aí, o que acho que não se pode perder na vida é o espírito do quintal independente se seu quintal for a área de lazer do apartamento. Mudando um pouco frase do início deste texto, a deixaria da seguinte maneira:

Que me deculpem os que moram em apartamento mas espírito de quintal continua sendo fundamental”

Que todos tenham um quintal feliz !

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Dor

Hoje experimentei a dor no sentido amplo, tentando me colocar exatamente no lugar do outro para tentar entender a magnitude deste sentimento. Confesso que não consegui e minha única saída foi recorrer a palavra, palavras estas que talvez sejam incapazes de definir o sofrimento que o casal Hamilton e Márcia estejam passando. No dia 07 de outubro pela manhã num brutal acidente que não compensa sequer ser narrado, seu filho André de 18 anos foi abruptamente retirado de nosso convívio, sem possibilidades de qualquer intervenção que pudesse evitar o ocorrido. Hamilton e Márcia são nossos vizinhos e André foi aluno de minha esposa e estávamos acostumados a vê-lo em nossa rua constantemente.

    Muita dor. Pela manhã do dia 08 comparecemos ao cerimonial de sepultamento e dentro do ambiente, sentimentos diversos: muitas pessoas inconformadas tentando buscar explicações para o inexplicável, um ar denso que parecia que poderíamos até pegar por imensa tristeza ali reunida. A dor. Sentimento que nos acomete e atormenta como um vulcão que entra em erupção dentro de nosso coração. A dor física quando sentimos vem para nos ajudar, ou seja, é uma maneira que nosso organismo encontra para que possamos reagir e eliminar algo que nos incomoda. Ao encostar qualquer parte do nosso corpo em algo que nos faz sentir dor, rapidamente reagimos e tiramos nosso corpo do perigo. Quando sentimos alguma dor é sinal de que algo não vai bem em nosso organismo e corremos para resolver o que causa o problema. Mas e a dor da Alma, esta que estamos sentindo hoje em solidariedade ao Hamilton e a Márcia ? Como estancar estas pontadas diretas no coração ?

    Confesso que foi até hoje a maior tristeza que tive diante de alguém que parte. O que será que se pode tirar de tudo isto ? Bom, com um pouco de sobriedade que ainda me restava na cerimônia, pois estava muito emocionado, invadido por um sentimento fortíssimo de tristeza, pude ver quanta gente estava ali em torno de André. Jovens da mesma idade que ele, amigos dos pais, familiares, professores, todos envoltos numa tristeza que só quem ama é capaz de produzir. E é nisto que temos de acreditar. Temos que acreditar que André estava ali vendo que é por ter a capacidade de amar que o ser humano tem a capacidade de se entristecer; é por ter a capacidade de amar que teremos de continuar seguindo a vida mesmo que seja difícil; é por ter a capacidade de amar é que experimentamos a dor da alma; é por ter a capacidade de amar que não consigo sequer respirar sem lembrar da dor do outro, o que tem tornado o dia de hoje muito difícil. É lógico que nem se compara aos diversos dias a frente que Márcia e Hamilton vão ter.

    Todos que estavam ali se pudessem fazer algo para reverter tal situação dariam tudo para fazê-lo, tenho certeza disto, porque todos que estavam ali de uma certa forma representam o amor que André os fez sentir. Só por isto, André já é merecedor de um lugar especial em nossas lembranças. Mas temos de acreditar que Deus tem seus propósitos e que André esteja com Ele neste momento.

    Ao Hamilton e Márcia nossos profundos sentimentos e que Deus os ilumine nesta difícil jornada.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Hotel Nossa Senhora das Graças – Um Grande Hotel

Eu sou um grande apreciador da arte cinematográfica e este final de semana assisti a um clássico do cinema, o filme Grande Hotel de 1932 (de Edmund Goulding, estrelado nada mais nada menos por Greta Garbo)que relata a vida de diversas pessoas que vão e que vem em um Hotel em Berlim, cada um com suas características, suas histórias de vida, suas decepções, alegrias e o passar do tempo durante a vida. Lembrei-me de um outro Hotel onde vivi toda minha infância e juventude, o Hotel Nossa Senhora das Graças, localizado na ladeira Monte Carmelo, centro comercial de Aparecida. Foi batizado assim, pois Nossa Senhora das Graças sempre nos acompanhou, sendo que na entrada do hotel, era possível avistar sua imagem que ficava suspensa sobre o andar térreo de braços abertos para quem chegava, imagem esta que resistiu as nossas brincadeiras de bola pelos corredores daquele prédio durante nossa infância. Só por este motivo aquela imagem já era milagrosa.

Praticamente foi lá que nasci e foi lá que tenho todas as minhas lembranças de formação como pessoa. O Hotel que era dirigido por meus pais era um prédio antigo, muito simples, com pouca estrutura turística, ainda não adaptado aos conceitos do turismo atual, isto porque, meus pais se tornaram proprietários na década de 70 onde quarto de hotel com banheiro dentro era artigo de luxo ou self-service em refeições nem se cogitava para se ter uma base. O que era impressionante é que existia turista ali o ano todo e o turista de repetição, ou seja, aquele que vinha todo ano. No meio destes que voltavam ano após ano, encontravam-se pessoas das mais variadas classes sociais entre elas, várias que poderiam pagar por estruturas muito melhores do que aquele hotel proporcionava. Eram apenas dois os motivos para que um turista voltasse àquele Hotel: o primeiro e inquestionável era a visita à Nossa Senhora Aparecida para agradecimentos e graças alcançadas e o segundo onde vou me ater mais dentro deste texto, era a receptividade proporcionada por um casal especial: Dona Olinda e Sr.João, acompanhado dos filhos e funcionários que ali trabalharam. Neste Hotel aprendi a arte de receber as pessoas e que o necessário para isto não está somente em ter os melhores recursos, mas reside no fato de receber as pessoas como se fossem da família. Era assim que os hóspedes deste hotel eram tratados. Não era possível comparar a estrutura de prédio com outros hotéis da cidade, mas nos quesitos em que dependia da intervenção especificamente do ser humano, aquele hotel deixava todos os outros bem longe. Para entender melhor o que quero dizer era que diversos fregueses voltavam ao Hotel pela comida feita pela Dona Olinda que fazia com amor, voltava para as rodas de conversas no salão do Hotel onde diversas vezes parecia mais com uma grande cozinha daquelas casas de Minas onde todos se sentam para conversar em torno do fogão a lenha. Numa destas conversas neste salão, descobrimos que Dona Maricota e Dona Raimunda eram respectivamente mãe e avó do Lô Borges e de um considerado filho adotivo chamado Milton Nascimento. Elas freqüentavam nosso Hotel há muito tempo e eram amigas de meu avô e nos considerava como pessoas da família. Aliás, Dona Raimunda foi uma das pessoas mais sóbrias que conheci nesta vida. Foi nossa fiel visitante durante 30 anos consecutivos. Tivemos a oportunidade de estar em Belo Horizonte quando completou 100 anos numa missa onde quem cantou foi só o Milton Nascimento e a família dos Borges. A última vez que dona Raimunda veio em nossa casa estava com 103 anos e uma de suas diversões prediletas ainda era fazer palavras cruzadas, sem olhar as respostinhas que vem no final da página. Aquela imagem de uma senhora com esta idade fazendo palavras cruzadas marcou muito.

Um fato comum era eu me deparar com pessoas da própria excursão ajudando nas tarefas que o hotel demandava. Um exemplo disto é que ao entrar na cozinha sempre encontrava 3 ou 4 pessoas da excursão ajudando a lavar os pratos ou picando os legumes que seriam preparados para eles no outro dia no almoço; no almoço ou jantar, pessoas da própria excursão ajudavam a servir, brincavam de outra profissão enquanto nos ajudavam propriamente dito. E as tarefas eram regadas por conversas, por risadas, por atualização da vida dos que vinham a nossa casa e dos que ali moravam permanentemente. Impensado ? Talvez nos dias atuais, mas naquela época neste aspecto aquele sempre foi o melhor hotel da cidade. E foi neste meio que aprendi também como é interessante se relacionar com as pessoas. Era interessante, pois todo final de semana minha casa tinha no mínimo umas 50 pessoas morando nela e pessoas das mais variadas classes sociais, das mais variadas culturas, dos mais estranhos costumes. Mineiros, baianos, catarinenses, paranaenses, cariocas, era a pluralidade pura e aprendi muito ali, uma escola viva. Por mais cansaço que a gestão de um hotel causava, nunca nos abdicávamos da conversa, de tratar bem as pessoas e se interessar por suas vidas. Conheci muita gente boa ali, pessoas dos quatro cantos do país.

O que atestava realmente a felicidade de quem esteve ali compartilhando de convivência naqueles poucos dias eram as despedidas calorosas ao final da excursão onde os hóspedes faziam questão de se despedir de um a um não esquecendo ninguém.

Viver em um hotel é uma experiência única. Quando era criança e não tinha com quem brincar, pois sou o mais novo da casa, sempre vinha criança na excursão. Quando era adolescente e queria paquerar umas garotas, no meio de 50 pessoas sempre vinha uma garota bonita. Daí a concorrência era acirrada(eu, meu irmão e alguns amigos que trabalhavam com a gente). Lembro-me que quem acordasse mais cedo conseguia mais pontos, pois já fazia a "varredura" para estabelecer os primeiros contatos com a garota. Com estas mesmas garotas depois nos correspondíamos por carta, algo difícil de imaginar atualmente na era da comunicação eletrônica.

Tudo ali era superdimensionado. Durante a semana quando não havia ninguém hospedado, experimentávamos dormir em diversos quartos diferentes. Para almoçar, mais de 100 pratos no armário. Quer tomar uma água, pegue um copo em meio a dezenas deles. Panelas de almoço sempre fui acostumado a ver aquelas que eu cabia dentro. Uma simples tarefa como "dar uma varrida na casa" se tornava algo enorme pois eram três andares com escadas. Um mundo completamente diferente. Uma experiência inusitada foi no casamento de minha irmã. Veio tanta gente que o hotel ficou lotado de parentes e amigos para a cerimônia.

Milton Nascimento escreveu encontros e despedidas fazendo uma correspondência entre a vida e uma estação de trem. Nós vivemos encontros e despedias num outro local, num hotel e é emocionante quando isto acontece tendo envolvimento. Montamos ali uma grande família e posso dizer que conheci muitas pessoas, suas histórias, suas buscas, suas dificuldades, alegrias e frustrações, cada uma delas com objetivos distintos, mas com alguns fatores em comum: todos gostavam de interagir, de trocar experiências de vida e de estender o conceito de família a mais pessoas. Por isto acredito no que canta Jorge Vercillo: todos nós somos um ! Pelo menos era assim que nos sentíamos naqueles finais de semana.

Abaixo, alguns personagens da história:

João, Olinda, Roseli, Rogério, Renato.

Maria(in memorian), Joana, Dona Maria Baixinha, Dona Luiza (in memorian), Marcos (in memorian), Raimundo (in memorian), Fátima, Francis, Maurício, Dona Rosa, Maria Tereza, Shirley, Barros, Teresa, Benedito, Dito(flamenguista), Márcio Fotógrafo, Cacau, Gê, Sagui, Lilia, Márcia, Marcela, Lindinha, Arlete, Zé, Toró, Mineiro, José Reis, José, Dona Lourdes.

Aos hóspedes que ali passaram todos estão sendo lembrados em cada palavra deste texto. Não coloco nomes para não cometer o erro de esquecer alguns, pois uma das virtudes de ter vivido neste hotel foi ter grandes amigos em larga escala.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

SERRA DA MANTIQUEIRA.

    Aos meus amigos da região do Vale do Paraíba se eu pedisse a vocês para indicar algo de belo desta nossa região o que seria ? Se esta pergunta fosse feita para mim não iria pensar nem meio segundo para responder: VISÃO DA SERRA DA MANTIQUEIRA.

    Este novo artigo do blog foi inspirado diante de uma viagem que fiz a trabalho de Lorena a São Paulo. Tão logo peguei meu carro, avistei a imponente serra da Mantiqueira a minha frente. Neste dia ela estava completamente maravilhosa, como estivesse se preparado para um desfile a céu aberto. O que mais me impressionara neste dia foi o fato de que era possível ver suas entranhas, parecendo-se mais com um cenário montado em 3D em um supercomputador. Talvez seus paredões e montanhas estivessem se parecendo com um imenso presépio da natureza. A medida em que as horas se passavam e o sol aparecia, ela também mudava, ficando mais bonita a cada minuto. Desculpem-me a pretensão, mas parecia que ela sabia que eu a estava contemplando e ali tornou-se possível um diálogo entre um homem e uma montanha. A beleza era tanta que desisti de pegar a Carvalho Pinto apenas para ter por mais tempo aquela maravilha da natureza em minha companhia do meu lado direito. A serra me respondia produzindo paisagens cada vez mais impressionantes.

    Meu amor por esta montanha remonta minha adolescência. Ninguém precisou me falar que ela estava lá, pois foi paixão a primeira vista mesmo. Lembro-me de parar horas a contemplar sua beleza tão natural e exuberante capaz de causar reações adversas: causava uma espécie de bem estar, provocava lembranças de pessoas especiais e o mais importante que considero era que aquela visão me fazia sentir em conexão com o Divino, ou seja, uma perfeita oração sem proferir sequer uma palavra. Morava em um dos pontos mais altos da cidade de Aparecida em um Hotel que era de meus pais, onde a janela do refeitório se abria diretamente para a visão mais linda de um produto da natureza que já tive até hoje. Quando chegava 17:00 hs, era tradicional debruçar-me sobre aquela janela e apreciar todas as cores do entardecer refletindo naquelas montanhas da Serra da Mantiqueira. Diversas vezes consegui a mesma visão que tive nesta viagem que me inspirou a escrever aqui no blog. Era comum eu colocar uma cadeira nesta janela e pegar meu violão para tirar algumas canções tendo o olhar sempre afixado na montanha. Em algumas vezes, disputávamos o espaço, pois meu irmão também gostava da visão daquela janela. Sorte que ela era suficiente para duas pessoas.

Aquela janela era um verdadeiro quadro, pois conseguia ver a serra de Aparecida até Lorena ou Piquete onde avistava o pico dos Marins. Ao fundo o Seminário Santo Afonso com uma grande área verde preservada e a frente a construção maravilhosa do seminário Bom Jesus em sua arquitetura singular. Mais a frente a Rodovia Presidente Dutra dava um toque especial com seus carros, caminhões e ônibus que não paravam de passar mas que não emitiam som pela distância em que eu me encontrava, parecendo assim brinquedos em miniatura. Tudo isto virava mais um toque especial no cenário. Sim eu tive esta visão durante toda minha adolescência e sorte do Lô Borges e Beto Guedes que já haviam feito a música Janela Lateral.

    Nesta viagem todas estas lembranças vieram a minha cabeça. Percebi que também poucas coisas me deixaram muito triste nesta vida e um destes fatos se refere a este quadro tão natural desta janela que citei acima. Vou citar estas três coisas: o fechamento do cine ópera em Aparecida (objeto de outro post do blog que está sendo criado), a queda do Palmeiras para a segunda divisão (fato completamente já superado) e a construção de um prédio ao lado do Hotel onde morava que destruiu minha visão tão maravilhosa que tive durante todos estes anos desta janela ou quadro natural. Foi muito triste. Quando saia na mesma janela, ao invés de avistar minha Serra da Mantiqueira, via um monte de janelas de quartos de Hotel. Não citarei o nome do Hotel que foi edificado, mas juro a vocês que fiquei muito fulo da vida com os caras. Se tivesse grana, compraria para derrubar e ter de volta minha visão antiga.

    Depois deste fato, um pouco mais adiante na linha do tempo também mudamos de lá e fui avistando a bela serra de outros pontos: durante as viagens para a faculdade no horário de verão, na saída da Editora Santuário, empresa que trabalhei durante anos e que era em frente a uma visão privilegiada da serra bem ao pé de um morro, a visão da varanda da casa dos meus amigos Bicarato em alguns churrascos feitos ali, em reuniões feitas nos sítios dos meus grandes amigos de banda Ícaro e Beto que tem visões privilegiadas para a serra, no bairro das Pedrinhas, na casa da minha sogra, nas idas e vindas ao sul de Minas, da sacada do quarto do meu filho, do restaurante Rota 116 e atualmente da janela do meu trabalho.

     Impressionante como todas estas coisas estão ligadas. Minha mulher tem o mesmo sentimento por esta serra e hoje estamos juntos. Montanha tem a ver com Minas e o som que mais gosto que é o movimento do Clube da Esquina foi desenvolvido no cerne das montanhas de Minas. Aqui tenho as montanhas da Mantiqueira.

    A Serra da Mantiqueira sempre esteve no mesmo lugar (espero que sempre esteja), sempre foi maravilhosa e é de graça, não tem contra indicação. Ela nos permite exercitar a arte da contemplação, elemento perdido nos dias atuais. Infelizes daqueles que olham e não vêem, já dizia um certo Mestre. Aos que aqui passarem, neste humilde blog, desejo que consigam cortejá-la da forma que ela merece e que consigam sentir que uma simples paisagem da natureza é capaz de mudar nosso dia para melhor, é claro.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

LUGAR COMUM

Existem alguns lugares no mundo onde Deus construiu com maestria particular. Você conhece um lugar como este? Eu conheço alguns e quero compartilhar. Hoje falarei especificamente de um que considero especial. Para frente, outros entrarão nos comentários.

Antes de fazê-lo, vou pontuar o que torna um lugar tão singular e especial no meu ponto de vista. Para mim, o que destaca um lugar e o torna diferente de qualquer local do mundo é o laço e a história que nos une a ele. Um lugar como este, confunde-se com nossa história de vida. É aquele lugar que não deixaremos de citar quando contarmos sobre a nossa vida para alguém. É aquele lugar onde voltaremos mais de uma vez ou até mesmo diversas vezes sem se arrepender da repetição. Falta de criatividade? Não! Por pura convicção mesmo. Parece que nos acolhe quando chegamos e se entristece quando vamos embora.

Acredito que cada um deve ter em mente um lugar como este e sabe exatamente, desenhar no quadro branco do pensamento, cada detalhe do mesmo.

Para mim este lugar tem nome e chama-se Caxambu. Este pedaço de terra localizado no sul de Minas Gerais é realmente um local singular. Ali tudo se mantém igual para que a gente se sinta diferente e é muito bom que seja assim.

Um lugar de clima maravilhoso e com um parque das águas igualmente tão maravilhoso que recebeu de nossa amiga carioca, psicóloga Simone, a melhor definição que classifica tamanha beleza: hospital da mente. Um hospital que cura apenas pelo fato de se entrar nele e ter um pouco de sensibilidade em prestar atenção naquilo que está em sua volta. Uma exuberância da natureza, com árvores centenárias, pássaros maravilhosos espalhados pelo local e suas fontes de água que possuem o poder curativo de diversas enfermidades ou tão somente para a preservação da saúde que temos. Um local para se dar trinta voltas no parque e não sentir que se está andando há tanto tempo. Um lugar que mesmo com o descaso do poder público que deveria cuidar melhor do espaço no entorno do parque, ainda continua com beleza imponente. Um lugar para parar e meditar e nos posicionarmos exatamente do tamanho que temos diante do universo, e que mesmo assim, tão pequenos, com tamanho poder de fazer diferença no planeta, na vida.

Em um dos dias em que lá permanecemos, participamos de uma cerimônia de reverência e agradecimento a água. Através do pesquisador Massaru Emoto, descobrimos algo inusitado: a água sente. Repito aqui as palavras escritas no prospecto do evento:

"Através das experiências com micro-fotografias Emoto compreendeu e demonstrou a verdadeira natureza da água e sua profunda conexão com a consciência humana. As formas estruturais da água observadas nos cristais sofriam alterações de formas dependendo da influência do sentimento do observador ou do meio. A ÁGUA SENTE."

A cerimônia foi transmitida de Caxambu para mais de 200 locais ao redor do planeta onde ocorre o Global Water Cerimony. Uma experiência completamente diferente para nós. Caminhar no parque e parar de fonte em fonte onde em cada uma delas era expressa uma manifestação cultural louvando e agradecendo a água. Teve de música de Dorival Caymmi a canto coral, música clássica e danças típicas.

Para nós da família Souza, Caxambu é um local com todos estes atributos e guarda além disto, pedaços de nossa história. Foi lá que nosso garoto foi dentro da barriga ainda e tomou banho de geyser através de sua linda mãe; foi lá que fomos com nosso primeiro carro sem o mínimo de experiência em viagens; foi lá que conhecemos o primo do Toninho Horta; foi lá que montamos o trio Caxambu compostos por Telma na voz, Tio da recreação percussionista e eu no violão proporcionando várias noites musicais; foi lá que conhecemos Beto do Rio de Janeiro com sua força de vida mesmo com as dificuldades que uma doença lhe impôs, mas não lhe venceu; foi lá que conhecemos a melhor empadinha que já comemos; foi lá que descobrimos a melhor comida do Brasil; foi lá que nos certificamos que uma das melhores coisas da vida é a conversa com gente simples; foi lá que descobrimos uma das melhores rádios do planeta a RioVerdeFm (www.rioverdefm.com.br) que fica em Baependi que é outro lugar maravilhoso, terra de meu pai e de meus avós; foi lá que conhecemos Simone, Wagner e suas filhas, um casal do Rio de Janeiro que tem o mesmo sentimento por esta terra e por fim foi lá que descobrimos que mesmo não nascendo lá, sentimo-nos partes dali, pois nossa energia se transforma quando passamos alguns dias diante desta terra.

Não posso afirmar que você vai se apaixonar por Caxambu como nós ou como o casal Wagner e Simone, pois são características muito pessoais. É difícil recomendar a outra pessoa, pois é igual a assistir a um filme que você acha maravilhoso e quando se recomenda a alguém, não existe a sinergia de opinião. É óbvio, pois a lente da janela da alma de cada um tem um grau diferente, conforme sua história, seus valores, sua sensibilidade, elementos adquiridos no decorrer da vida.

Se Caxambu não for o lugar para você, pelo menos recomendo que encontre um local para chamar de seu e que te agrade e recarregue todas as energias de que necessitas para uma vida equilibrada diante de todas as atribuições e papéis que temos de exercer no cotidiano. Um lugar principalmente onde se possa contemplar a natureza e que nos faça ter a plena certeza de que Deus existe.








sexta-feira, 16 de julho de 2010

COMPETIR PARA PERDER

É comum quando entramos em uma livraria nos depararmos com belos metros quadrados destinados a livros de auto-ajuda no que diz respeito a criação de filhos. Também é comum em rodas de amigos escutarmos a celebre frase: "Não existe uma fórmula pronta". Ligamos a TV e nos deparamos com Nardonis, Richthofen, Brunos, Macarrões, Elizas, Mércias etc etc.

Em tempos em que ficamos satisfeitos pelo fato do Brasil começar a figurar entre as oito economias do globo, sabemos que ainda há muito por fazer e principalmente agora quando nos aproximamos das eleições presidenciais, as mazelas e heranças malditas são trazidas a tona com acaloradas discussões: o problema do país é educação, melhorar o ensino nas escolas públicas, melhores salários aos professores, melhores condições de trabalho dentro das escolas brasileiras, saneamento básico, bolsas famílias, bolsas escolas, desoneração da carga tributária, etc. Digamos que aparecesse um gênio da lâmpada e resolvesse todos os problemas citados anteriormente, será que eliminaríamos de vez as celebridades do mal citadas no primeiro parágrafo deste texto ?

Esta pequena introdução e todo texto que se segue foi inspirado a ser escrito depois que fui participar e assistir a um campeonato de futebol do meu filho de oito anos de idade. Na escola de futebol onde ele freqüenta, é possível se fazer um curso de sociologia em apenas uma ida em um jogo destes de campeonato. Basta aguçar as percepções. Dividiram a turma em seleções como se fosse um torneio de copa do mundo. Fui assistir ao jogo com intuito de participar junto com meu filho e apoiá-lo ao esporte, que todos sabemos, é uma boa ferramenta para os pais para manter os filhos numa vida saudável e longe de vícios destruidores da vida. Sinceramente, pouco me importava o resultado das partidas. O que me interessava eram efetivamente duas coisas: meu filho no esporte e como se diz no jargão do marketing moderno do Bradesco: PRESENÇA. Todo pai e mãe deveria realmente seguir o lema do BRADESCO e isto não tem relação com tempo como todos nós já sabemos. Muitos com pouco tempo fazem muito mais do que poucos com muito tempo. A intenção é que a frase fique confusa mesmo. Mas se eu fosse consultor de marketing do Bradesco, faria um acréscimo à frase: PRESENÇA QUE FAZ A DIFERENÇA.

Bom mas voltando ao campeonato, meu filho caiu no time da Espanha que enfrentou a Alemanha no primeiro jogo. Uma legião de mães, pais, avós, irmãos mais velhos se posicionaram atrás do gol para acompanhar a partida de meninos de oito anos de idade. É bom frisar mais uma vez: oito anos de idade. Começado o jogo, é como se assistíssemos passarinhos atrás da comida: onde está a bola, está todo mundo. Nada de tática, guardar posição ou coisas do gênero. Dentre estes meninos, alguns se destacam e correm mais, tem mais domínio etc. Era para ser divertido e engraçado como é.

Eu estava muito feliz ao ver meu filho jogando, mas aí comecei a escutar os absurdos a minha volta. O time do meu filho fez um gol. Uma mãe de um garoto do time adversário do meu filho grita, xinga, esbraveja com o menino . Outra não suporta ver o ocorrido e entra na beirada do campo para soltar outras pérolas a um dos meninos. Um avô, num lance de jogo de criança fica irado pedindo para o juiz marcar uma falta. Um pai ao meu lado direciona uma frase que prefiro não citar aqui. Olho todo aquele ambiente a minha volta e direciono o olhar para um menino cujo a mãe desestruturou sua cabeça a ponto dele começar a querer chorar no meio do jogo. Isto tudo com a bola rolando. A cara de desespero do menino era notória, pois ele não sabia como agradar aquela desesperada que estava na beira do campo. No decorrer do jogo o time do meu filho venceu por 3 x 2. Um programa social para convivência das crianças foi transformado numa arena de guerra, de competição acima dos limites para crianças de oito anos ????

Na saída esbravejamentos com os filhos derrotados , descontentamento com os professores por ter colocado um menino melhor no time de lá que no de cá, caras feias, crianças tristes. Quem precisa de escola ali ? Que escola pública melhor que vai resolver esta questão ? O primeiro lema do Bradesco estava ali, pois os pais estavam PRESENTES, porém, longe de fazerem DIFERENÇA. Aliás, desta forma, era melhor que tivessem deixado os filhos lá e buscassem mais tarde. Ali era um belo momento para ajudar o filho a lidar com derrotas ou pensam que vida só será construída com vitórias ? É por este motivo, que vemos as celebridades do mal lá do primeiro parágrafo surgirem. Não aceitam a derrota e não sabem lidar com ela.

Por isto o problema maior deste país e de qualquer outro consiste na FAMÍLIA !!!!! Estruturar prédios, pagar melhores salários, criar empregos são fatores necessários mas se tornarão paliativos diante do problema maior da desestruturação da família. Olhando tudo aquilo ficava pensando: como consertar tudo isto ? Ao leitor deste texto que não pense que me considero exímio de erros com relação à criação de filhos. Irei errar também em diversos detalhes, mas ali, estamos falando do que está abaixo da linha do básico. Mas como consertar tudo isto ?

Na minha humilde opinião, uma escola desta nunca poderia funcionar sem a presença de uma psicóloga que pudesse apresentar ferramentas para estas pessoas que se encontram ao redor. Sabemos realmente do custo disto, mas não compre um terreno se não tiver dinheiro para passar a escritura do mesmo. É preciso palestras direcionadas a estas pessoas informando o básico do básico para que uma criança cresça com os seus direitos assegurados.. Depois da palestra, um acompanhamento lá durante as atividades. E aí temos uma oportunidade não só de melhorar as crianças, mas sim tudo que está em seu entorno. Os professores fazem um ótimo trabalho, já fizeram uma palestra sobre nutrição infantil, mas, eles também não têm as ferramentas necessárias para lidar com tudo isto. Eu também não teria. Fazendo uma analogia estamos diante de uma situação igual ao que os USA estão enfrentando. O inimigo é invisível, o terrorista pode ser qualquer um, que está na rua. Portanto fica difícil saber quem é. No caso destas crianças as mães e pais ainda vivem juntos, sendo assim parece que estão em melhores condições. Mas não estão. Serão celebridades do mal em menores instâncias, praticantes de delitos suportáveis pela sociedade: serão praticantes de atos como um palavrão direcionado para a mulher ou filho num futuro, quem sabe até um tapa em um destes dois, fazer de tudo (tudo mesmo!) para conseguir os objetivos próprios passando por cima de qualquer valor para não serem derrotados, serão os condutores do país daqui a pouco tempo.

Diante de tudo isto, vejo que o papel da sociedade civil é muito maior que imaginamos. Não adianta mais cuidar bem apenas do seu filho. É preciso se embrenhar em situações onde o pouco de conhecimento que temos possa salvar talvez um destes meninos desta covardia adulta e indolor. Como diz Maslow, é óbvio que conhecimento sem comida na barriga não é digerido. Mas estas pessoas já resolveram esta primeira necessidade. O que mais assusta é que ali, estão presentes pessoas com condições financeiras muito melhores do que a de qualquer leitor deste texto.

É preciso visão para melhorar realmente o que precisa ser melhorado. O poder público tem por obrigação, ajudar nestas questões e nós também temos de exercer a cidadania dentro de nossos deveres e direitos. É preciso sair do básico e dar um pouco mais para melhorar a sociedade como um todo.

Estamos preocupados com a violência mostrada pela mídia mas na maior parte das vezes, o lugar onde a criança é mais violentada ou privada do direito de crescer com o básico que assegure um desenvolvimento saudável tanto física como psicologicamente é dentro de sua casa. E isto não pode acontecer. É uma violência que cria cicatrizes tão profundas quanto um tapa.

Termino dizendo que naquele jogo em que a Espanha (time do meu filho) ganhou da Alemanha todos nós perdemos.



quarta-feira, 14 de julho de 2010

SOB MEDIDA

Hoje gostaria de compartilhar com o amigo leitor, um assunto que mistura história, conhecimento sobre negócios, nostalgia e o prazer que se sente quando somos atendidos literalmente sob medida às nossas expectativas. Colhi todos estes elementos em uma visita ao senhor Manoel, alfaiate habilidoso com mais de 30 anos de profissão, que ainda resiste a toda produção industrial e em escala que se tornou lei em todos os seguimentos inclusive nos têxteis, desde a famosa revolução industrial. Todos nós sabemos dos benefícios que a produção em escala trouxe ao mundo e nem tenho propósito de discutir isto nestas linhas. Porém, alguns fatos merecem a exposição.

Mas o que isto tem haver com um alfaiate ? Vejamos:

Minha visita ao senhor Manoel começa quando da compra de uma calça onde a numeração 42 ficava larga e a 40 ficava apertada. A maioria das calças que experimentei na loja em questão, caia no mesmo problema que segundo o vendedor, interessado muito mais na comissão da venda, seria prontamente resolvido levando a calça mais larga e literalmente apertando os cintos.

Não sei se o leitor já enfrentou tal situação mas a indústria não produz a numeração 41, 41,5 etc. A solução então foi em uma conversa com meu pai e minha mãe, pedir uma indicação de como resolver o problema. Através deles, cheguei até Manoel alfaiate, dono de um estabelecimento comercial de frente ao seminário Bom Jesus, onde me deparei com um senhor de cabelos brancos, sentado em uma máquina de costura com exímia habilidade no manusear no pedal em sincronia total com o manuseio da roupa sobre a agulha que trabalhava incessantemente no conserto daquela peça. No ambiente, panos de várias cores pendurados e um espaço ao fundo utilizado como provador das roupas. Um rádio 3 em 1 (lembram-se dele ? ) funcionando e a imagem de nossa senhora em um mini altar na parede com uma luz avermelhada indicando a fé do dono do estabelecimento.

Travamos ali uma conversa entre gerações distintas que me trouxe conhecimentos e lembranças da infância onde via a querida Dona Natalina, esposa do senhor Vavá muito amigos de meus pais manuseando a mesma máquina que já não via há tempos. O diálogo foi tão interessante que solicitei a autorização de ficar ali aguardando o conserto da roupa. Entre o experimentar da roupa para tirar as medidas e o conserto propriamente dito, senhor Manoel me contou como fazer roupas era algo pomposo há 40 anos. As pessoas andavam muito mais alinhadas, pois uma roupa feita sob medida tornava a pessoa muito mais elegante. Os ternos predominavam como vestimentas masculinas mais característica e eram comum lojas especializadas na venda de panos onde vendedores debruçavam modelos e mais modelos sobre o balcão, tendo em mãos as ferramentas indispensáveis para aquele trabalho: metro e tesoura. Lembro-me de uma destas lojas no centro de Guaratinguetá onde fui com meus pais mais de uma vez comprar panos.

Minha curiosidade era cada vez maior a respeito do assunto e cada vez mais, ficava impressionado com a habilidade do senhor Manoel nos consertos. Perguntei a ele como havia sobrevivido a todo este tempo e o que fez acabar com os outros companheiros de profissão. Senhor Manoel respondeu prontamente “É claro que a produção de roupas de maneira industrial complicou nossas vidas, mas minha percepção foi mudar junto com a mudança. A maioria dos alfaiates faziam roupas novas e não se especializavam em consertos, que davam menos faturamento na época. Eu adaptei-me rápido e quando vi que as roupas seriam produzidas pela industria, decidi me especializar cada vez mais nos consertos pequenos. É lógico que ainda continuo a fazer roupas novas mas para uma gama menor de clientes. Além disto, tenho clientes de mais de 30 anos que seguem comigo até hoje e vão passando para os filhos que chegam até aqui como você chegou.”

. Você quer lição maior sobre negócios e carreira do que esta ? Enquanto vários palestrantes e consultores de negócios cobram fábulas para ditar caminhos da atualidade, senhor Manoel dá as aulas na prática numa simples conversa. Ele ainda me contou que em Aparecida existiam diversos alfaiates muito bons profissionais que não souberam lidar com tal situação e mudaram de profissão ou de ramo de negócio.

Depois de toda conversa, Sr. Manoel me indica que está pronto o conserto e me pede para experimentar a calça. Quando coloco no corpo sinto a diferença do antes e depois. Medida exata, barra perfeita e uma outra concepção do modelo em meu corpo. Pago com prazer duplo por ter tido uma aula de história, nostalgia e negócios, e por ter uma calça exatamente conforme as minhas medidas.

Termino combinando uma confecção de uma calça por inteiro e com a certeza de que Sr Manoel ganhou mais um freguês e um propagandista para ajudar a perpetuar sua profissão independente das “revoluções” que possam advir por aí.